segunda-feira, 10 de abril de 2017

Temas para o EMÈM

TEXTO 1


TEXTO 2

Quase um em cada quatro brasileiros (23%) afirma que dar dinheiro a um guarda para evitar uma multa não chega a ser um ato corrupto, de acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais e o Instituto Vox Populi. Os números refletem o quanto atitudes ilícitas, como essa, de tão enraizados em parte da sociedade brasileira, acabam sendo encarados como parte do cotidiano.

“Muitas pessoas não enxergam o desvio privado como corrupção, só levam em conta a corrupção no ambiente público”, diz o promotor de Justiça Jairo Cruz Moreira. Ele é coordenador nacional da campanha do Ministério Público “O que você tem a ver com a corrupção”, que pretende mostrar como atitudes que muitos consideram normal são, na verdade, um desvirtuamento ético (…).

Aceitar essas pequenas corrupções legitima aceitar grandes corrupções”, afirma o promotor. “Seguindo esse raciocínio, seria algo como um menino que hoje não vê problema em colar na prova ser mais propenso a, mais pra frente, subornar um guarda sem achar que isso é corrupção.”

Segundo a pesquisa da UFMG, 35% dos entrevistados dizem que algumas coisas podem ser um pouco erradas, mas não corruptas, como sonegar impostos quando a taxa é cara demais.

Otimismo: Mas a sondagem também mostra dados positivos, como o fato de 84% dos ouvidos afirmar que, em qualquer situação, existe sempre a chance de a pessoa ser honesta.

A psicóloga Lizete Verillo, diretora da ONG Amarribo (representante no Brasil da Transparência Internacional), afirma que em 12 anos trabalhando com ações anti-corrupção ela nunca esteve tão otimista – e justamente por causa dos jovens. “Quando começamos, havia um distanciamento do jovem em relação à política”, diz Lizete. “Aliás, havia pouco engajamento em relação a tudo, queriam saber mais é de festas. A corrupção não dizia respeito a eles.” “Há dois anos, venho percebendo uma grande mudança entre os jovens. Estão mais envolvidos, cobrando mais, em diversas áreas, não só da política.”


Para Lizete, esse cenário animador foi criado por diversos fatores, especialmente pela explosão das redes sociais, que são extremamente populares entre os jovens e uma ótima maneira de promover a fiscalização e a mobilização.

Mas se a internet está ajudando os jovens, na opinião da psicóloga, as escolas estão deixando a desejar na hora de incentivar o engajamento e conscientizá-los sobre a corrupção. “Em geral, a escola é muito omissa. Estão apenas começando nesse assunto, com iniciativas isoladas. O que é uma pena, porque agora, com o mensalão, temos um enorme passo para a conscientização, mas que pouco avança se a educação não seguir junto”, diz a diretora. “É preciso ensinar esses jovens a ter ética, transparência e também a exercer cidadania.”

TEXTO 3

A campanha (O que você tem a ver com a corrupção?) se justifica pela necessidade de se educar a sociedade por meio do estímulo à ética, à moralidade e à honestidade, construindo um processo cultural de formação de consciência e de responsabilidade dos cidadãos a partir de três tipos de responsabilidades (…): 

1) a responsabilidade para com os próprios atos, ou responsabilidade individual; 2) a responsabilidade para com os atos de terceiros, ou responsabilidade social ou coletiva e; 3) a responsabilidade para com as gerações futuras a partir de um agir consciente.

Dessa forma, pretende-se contribuir com a prevenção da ocorrência de novos atos de corrupção e com a consequente diminuição dos processos judiciais e extrajudiciais, por meio da educação das gerações futuras, estimulando, ainda, o encaminhamento de denúncias populares e a efetiva punição de corruptos e corruptores. Além disso, é dever institucional do Ministério Público combater a corrupção, repressiva e preventivamente, estimulando, inclusive, o desempenho das atribuições e das atividades extrajudiciais.
 
Objetivos: Reduzir a impunidade nacional, ou seja, cobrar a efetiva punição dos corruptos e dos corruptores, abrindo um canal real para oferecimento e encaminhamento de denúncias; educar e estimular as gerações novas através da construção, em longo prazo, de um Brasil mais justo e mais sério, destacando o papel fundamental de nossas próprias condutas diárias; aproveitar momentos do cotidiano infanto-juvenil (família, escola e comunidade) para propiciar a vivência de atividades que os levem a conhecer esses princípios, estimulando-os a praticá-los no seu ambiente de convívio social; divulgar a idéia em locais e acontecimentos informais (sociais, esportivos, campanhas e eventos), possibilitando o alcance da campanha a um público maior.



22 Possíveis Temas da Redação do Enem

“Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história”.(Bill Gates).

Primeiramente, gostaria de lembrar que essa lista não é uma tentativa de adivinhar o tema oficial da redação, mas sim de contribuir para seu estudo de forma específica. Percebemos que o exame sempre trabalha temas atuais de cunho social e relevância nacional.

Algo que acreditamos muito é que o treino é fundamental para o aprendizado. Unindo esse nosso ideal com a sabedoria das características específicas da redação do Enem, podemos ter certeza de que estudando e elaborando redações com os temas propostos abaixo, seu desempenho irá melhorar consideravelmente.

1. Diálogo entre ciência e sociedade

A ciência realiza novas descobertas frequentemente, o que possibilita melhorias e desenvolvimento de novas tecnologias. Entretanto, muitas vezes a sociedade não entende o método científico e muitas coisas são confrontadas com paradigmas culturais, morais ou religiosos. Para lidar com isso, é necessário haver comunicação entre o meio científico e a população.

2. Limites entre estética e saúde

Academia, dietas, cirurgias plásticas, anabolizantes etc. É grande a busca pelo corpo perfeito caracterizado por um padrão de beleza. Mas até que ponto a estética coincide com hábitos saudáveis? Conhece-se muitas doenças causadas por insatisfação corporal como anorexia, bulimia, depressão, compulsão alimentar e obesidade, além de consequências no convívio social como discriminação e baixa autoestima.

3. Novos modelos de educação

Há muitos debates ocorrendo sobre as problemáticas do sistema tradicional de ensino e novos modelos de educação para o século XXI, tendo em pauta os métodos de avaliação, uso de tecnologias, interação professor-aluno, formação crítica e social etc. Um recente documentário realizado no Brasil que ajuda na discussão desse tema é o “Quando sinto que já sei” que pode ser encontrado no Youtube.

4. Dificuldades da formação universitária

A formação universitária no Brasil encontra diversos obstáculos como financeiro (o alto valor das mensalidades em faculdades privadas, custeio de transporte ou residência, materiais didáticos, alimentação), psicológico (escolha de curso, afastamento de familiares e amigos, aumento de responsabilidades, inserção no mercado de trabalho), entre outros. Ao mesmo tempo, o Estado tem criado políticas públicas como Fies, Pronatec, sistemas de cotas, criação de novas universidades etc.

5. Conceito de família no século XXI

O projeto de Lei 6583 de 2013 cria o Estatuto da Família. Nesse texto, família é definida como união entre homem e mulher. A partir disso, muitas discussões têm sido feitas sobre o conceito de família atualmente, com o intuito de refletir sobre famílias formadas por mães ou pais solteiros, avós e tios, casais homossexuais, poligamia etc.

6. Justiça com as próprias mãos


Tema bastante polêmico em 2014 e que pode ser discutido com mais imparcialidade esse ano. O combate à violência através da justiça com as próprias mãos é válido? Definições de justiça, casos de linchamentos, rebeldia com a ordem e segurança públicas são alguns pontos que abordam essa temática.

7. Obsolescência programada

Esse conceito significa a diminuição da vida útil de equipamentos com o intuito de incentivar a compra de novos produtos ou versões atualizadas. Rodeio esse tema a questão do consumismo exacerbado, resíduos eletrônicos, responsabilidade e consciência social do consumidor. Um documentário sobre esse assunto também pode ser encontrado no Youtube e ajuda no entendimento.

8. Trânsito em grandes metrópoles


Grandes cidades têm tido cada vez mais problemas com o trânsito. Muitos pontos podem ser discutidos nessa temática como a preferência dos cidadãos por transporte público ou individual, poluição causada por muitos carros, poluição sonora (buzinas em congestionamento), via exclusiva para ônibus, ciclovias, tempo gasto diariamente entre trabalho e residência, atraso nos horários e superlotação em ônibus, trens e metrôs, greves dos funcionários de transportes públicos, preços das passagens, catraca livre etc.

9. Voluntariado e transformações sociais

O trabalho voluntário no Brasil tem passado por uma transformação. Não se pensa mais no voluntariado como assistencial (doação de roupas, alimentos e agasalhos, por exemplo), mas como uma tentativa de mudança social, através de medidas inclusivas e de impacto. Outro ponto a ser considerado é a valorização que as empresas fazem de candidatos e funcionários que realizam trabalhos voluntários, assim como próprios projetos sociais realizados pelas empresas para contribuição à sociedade ou marketing.

10. Liberdade de expressão e mídia


Tema bastante atual, a liberdade de imprensa tem sido muito discutida, principalmente após o ataque à revista francesa Charlie Hebdo no início desse ano. Pode-se refletir sobre os limites entre liberdade de expressão e respeito às diferenças ou respeito à verdade.

11. Consumo de álcool e droga por adolescentes

Por lei, o consumo de álcool é proibido por adolescentes. Entretanto, é crescente o uso não só de bebidas alcoólicas mas também de drogas lícitas e/ou ilícitas entre os jovens, como cigarro, maconha, cocaína, LSD etc. As razões e consequências desse ato podem servir como base para a discussão do tema.

12. Limites entre humor e bullying

Os limites do humor é algo que tem chamado bastante atenção atualmente por causa de diversos processos a comediantes do Brasil como Rafinha Bastos, Danilo Gentili etc, e o constante uso de discriminação das minorias para fazer piada. A responsabilidade social do comediante foi discutida no excelente documentário de Pedro Arantes, “O riso dos outros”, encontrado no Youtube.

13. Desigualdade étnica e de gênero


O Brasil é um dos países com maior desigualdade do mundo e entre muitos tipos de desigualdade, a étnica e a de gênero costumam ser as mais discutidas, assim como os preconceitos gerados por essa situação, respectivamente, racismo e machismo. Os direitos conquistados, as lutas e reivindicações e as políticas públicas são alguns pontos que merecem ser estudados para entender a causa e argumentar com clareza.

14. Gestão de resíduos urbanos


Em 2010, foi instituída a Política Nacional de Resíduos Sólidos. A gestão de resíduos ainda é um tema bastante em alta devido à enorme quantidade de lixo produzido anualmente no Brasil. Coleta seletiva e logística reversa são alguns dos termos importantes de serem entendidos. Para conhecer mais sobre a lei e sua importância na sociedade, pode ser consultada a explicação no site do Ministério do Meio Ambiente.

15. Saúde pública


Problemas no Sistema Único de Saúde (SUS) como falta de médicos, atrasos, grandes filas de espera e falta de equipamentos são possíveis de serem tratados em uma dissertação. O tema também é bastante atual devido ao programa de governo Mais Médicos que trouxe médicos de outras nacionalidades (cubanos) para atuar no Brasil com o intuito de amenizar os problemas na saúde pública.

16. Abuso em trotes universitários

Todo ano, vários casos de abuso em trotes universitários são noticiados. Esse ano, um dos casos mais alarmantes foi de uma jovem que teve a perna queimada por ácido. O fator psicológico dos jovens recém inseridos no ensino superior também é pauta nessa discussão. Leia mais sobre esse tema nessa coluna.

17. Tráfico de drogas e violência urbana

A correlação entre o tráfico de drogas e a violência urbana, principalmente em favelas, é muito propício de discussão. Esse tema foi recentemente abordado nos filmes Tropa de Elite (1 e 2) e é sempre mencionado quando se debate sobre Legalização da Maconha, já que o combate às drogas é um dos fatores que mais causam violência e conflito entre policiais e civis no Brasil.

18. Uso da água na economia brasileira


O Estado de São Paulo passa por uma intensa crise hídrica e isso tem colocado a água no centro de grandes discussões. Uma das possibilidades de tema envolvendo a água é a sua importância em diversas atividades econômicas no Brasil como a agroindústria e a geração de energia elétrica através de hidrelétricas.

19. Saúde feminina na gravidez


A preocupação com a saúde da mulher durante a gravidez é um bom tema de redação pois nele podemos tratar várias problemáticas presentes na sociedade brasileira como o aborto não legalizado que fere e mata milhares de mulheres por ano, os maus tratos nos hospitais durante abortos espontâneos ou nos partos. O tema também é atual por causa da recente resolução que limita a quantidade de cesáreas que podem ser realizadas, o que é uma intervenção do Estado na escolha da mulher.

20. Sustentabilidade nas empresas

O termo sustentabilidade está bastante em alta no Brasil com a crescente preocupação com o meio ambiente. Nesse contexto, as empresas precisam atuar coincidindo a busca por lucros com o cuidado ambiental. Políticas empresariais e marketing verde são os pontos de destaque nessa discussão.

21. Intolerância religiosa


Novamente, o ataque à revista Charlie Habdo pode exemplificar o tema. Mas muito mais do que um caso isolado, a intolerância religiosa é grande tanto no Brasil como em outros países. Ao debater esse tema, precisamos lembrar da laicidade do Estado e do respeito aos diferentes tipos de crenças e rituais religiosos, podendo destacar, no caso do Brasil, o grande preconceito existente com religiões de origem africana.

22. Ativismo em redes sociais

Cada vez mais, as redes sociais têm sido usadas para estar em contato com a política e com movimentos sociais. Eventos são criados para marcar protestos, projetos de leis polêmicos facilmente viram virais e reivindicações têm sido feitas através de abaixo-assinado online. Essa nova forma de participação política e suas causas e consequências na sociedade é um bom tema de pesquisa e escrita.

Exato.Boas escolhas

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Entre os alunos não faltaram piadas porque ela havia errado o *9x1= 7*, sendo que a resposta certa é o número 9.
Todos riam debochadamente da professora.
Então… Ela esperou todo mundo se acalmar e disse: “É assim que você é visto na vida.
Errei de propósito para mostrar a vocês como o mundo se comporta diante de algum erro seu.”
Quantos de nós agimos assim?
Quantos de nós somos tratados assim?
Acredito que devamos repensar sobre os nossos cálculos emocionais.
É interessante como não precisamos ensinar as pessoas a se odiarem…Mas como precisamos ensinar as pessoas a se amarem, não é mesmo?
- Lígia Guerra -
🎬 Uma reflexão para a nossa nova semana!!!



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Para alguns Deus é um guia, para outros uma energia e algumas pessoas não acreditam na sua existência. Opinões e sentimentos são muito íntimos e devem ser respeitados.
Na minha forma de sentir, Deus conta comigo para que de alguma forma eu faça a minha existência valer a pena. Nem sempre acerto, mas estou tentando ser merecedora dessa confiança.
Percebo que as "coincidências" acontecem na vida de todos nós e que de alguma forma elas trazem recados, ensinamentos e encorajamento.
Independente das nossas crenças o destino segue... Preste atenção nas entrelinhas da jornada!
- Lígia Guerra -






Nenhum texto alternativo automático disponível. 
Sorrisos e abraços espontâneos me emocionam. Palavras até me conquistam temporariamente. Mas atitudes me ganham para sempre.

Clarice Lispector
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SERÁ QUE VOCÊ PODE?

"Era uma vez uma corrida de sapinhos. O objetivo era atingir o alto de uma grande torre. Havia no local uma multidão assistindo. E a competição começou.
Infelizmente uma onda de negativismo pairou sobre a multidão: "Que pena... esses sapinhos não vão conseguir, não vão conseguir!" E os sapinhos começaram a desistir. No entanto, havia um que persistia e continuava a subida, em busca do topo.
A multidão continuava gritando: "Que pena! Vocês não vão conseguir!" E os sapinhos estavam mesmo desistindo, um por um... menos aquele sapinho que continuava tranqüilo, embora cada vez mais ofegante.
Já ao final da competição, todos desistiram, menos ele. E a curiosidade tomou conta de todos, que queriam saber o que tinha acontecido... E assim, quando foram perguntar ao sapinho como ele havia conseguido concluir a prova, descobriram: o sapinho era surdo!”
Nem sempre conseguiremos ser indiferentes diante das críticas, mas ainda assim precisamos selecionar as que somam e as que subtraem.
O fato é que a opinião negativa jamais nos ajudará a construir aquilo que nos compete. Cabe a nós ter a audição seletiva e os olhos determinados para não perder o foco do caminho.
Você pode!!!
- Lígia Guerra -
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TEXTOS DE PORTUGUÊS DE 6º AO 9º ANO COM GABARITO- IV


01 – HISTÓRIAS DE PAIS EM ESTÚDIOS DE TATTOO

         A lei estadual sobre piercings e tatuagens, que acabar de completar um ano, atingiu em cheio não apenas filhos, mas pais. Há quem esteja satisfeito porque agora tem o apoio legal para o que pensa a respeito de tatuar o corpo ou colocar um piercing antes de completar a maioridade. Mas há também os indignados. Confira abaixo algumas histórias Free-lance para a folha.
         Independentemente da vontade dos pais, a lei nº 9.828, de 6/11/97, proíbe a aplicação de tatuagem e piercing em menores de 18 anos.
         Entre os pais, as opiniões divergem. De um lado, estão os que consideram a lei um instrumento válido para defender o cidadão de um arrependimento futuro. Do outro, os indignados. É o caso do advogado Robson [...], pai de Thais, 16, que, há três semanas, tentava sem sucesso colocar um piercing na clínica [...].
         “Essa lei é inconstitucional, o Estado não pode interferir na minha decisão sobre as vontades da minha filha, principalmente no que diz respeito à aparência dela”, disse o advogado.
         Dias depois, na Clínica [...], outro pai indignado se manifestava. “Para mim, essa lei é ridícula: piercing e tatuagem não prejudicam a sociedade”, disse José Américo [...], cuja filha, Lia [...] 14, havia sido barrada em dois respeitados estúdios de piercing em São Paulo.
         “Eu quero que minha filha aprenda a se indignar, é uma questão de liberdade. Daí, amanhã ela vai em qualquer lugar e volta com um negócio malfeito”, disse ele.
         Foi o que acorreu com as irmãs Ana Paula, 16, e Juliana [...] 15. Com o consentimento dos pais, foram à Clínica [...], um dos melhores estúdios de pierceng do Brasil, que não fez o trabalho. Acabaram na mão de um profissional sem habilitação.

         “O furo das duas infeccionou, e a joia era de ferro” (a joia, como é chamado o pierceng, deve ser de aço cirúrgico), conta a mãe, Vera [...]. “Não associo piercing ou tatuagens à droga ou marginalidade. Há tantos jovens desassistidos com problemas de drogas, por que não fazer algo por eles?”, diz ela.
         Já V. C. S. – ela pediu para não ser identificada – diz que chorou uma semana por causa da filha, B. F. S., 16, dona de dois piercengs e que acaba e tatuar um gnomo de 10 cm na batata da perna.
         “Uma menina de 16 anos não tem cabeça para avaliar as consequências de uma tatuagem. Ela vai ter problemas profissionais porque o preconceito existe. Uma coisa é fazer uma tatuagem com 21 anos de idade, consciente da profissão que vai seguir, e outra, embalada pelos amigos”, diz a mãe.

                       Esperar, sim, mas não à força.

         “Ninguém pode ter o direito de proibir uma pessoa de enfeitar o próprio corpo. Mas é legal esperar ter maturidade”, diz Fernando [...] 19, feliz dono de três tattoos feitas aos 18. Douglas [...], 19, conta arrependido: “Fiz quatro tatuagens com 15 anos e tiraria todas. Elas foram malfeitas, diz o bagulho chapado. Um moleque menor de idade não tem noção e faz muita besteira.”
         A estudante Roberta [...], 18, esperou três anos para imprimir um sol tribal nas costas. “Não fiz antes porque queria que fosse em um lugar legal para ter segurança”, conta ela, que chegou ao estúdio [...] acompanhada das amigas.
         Uma delas, Bruna [...], 15, foi categórica: acha legal ter maturidade, mas acha a lei “ridícula porque tira a liberdade e o direito de as pessoas fazerem o que quiserem com o próprio corpo”.
         Seguir a lei pede paciência e é o que Rachel [...], 15, acredita não ter. Em vez de esperar os 18, a garota pensa em apelar para a Nova Zelândia: “Como eu vou fazer intercâmbio, talvez eu faça por lá, já que para eles tattoo é supercomum.”

           Folha de São Paulo, São Paulo, 7 dez. 1998, Caderno Folhateen, p. 6.
                         (Sobrenome de pessoas e nome de clínicas foram retirados).

1 – Recorde o início da reportagem:
      “A lei estadual sobre piercengs e tatuagens [...]”
a)     O que é uma lei estadual?
Uma lei que só vigora no âmbito do estado em que foi aprovada.

b)    A lei sobre piercings e tatuagens a que se refere a reportagem se aplica a você?
A resposta depende do Estado em que residem os alunos e de sua idade: sim, se residem em São Paulo e são menores, não, se residem em outros estados.

2 – A reportagem começa afirmando que a lei sobre piercings e tatuagens acaba de completar um ano.
         -- Identifique as datas que confirmam essa afirmação.
       A reportagem é publicada em 7 de dezembro de 1998. A lei é de 06 de novembro de 1997.

3 – Identifique na reportagem e registre em seu caderno, em listas separadas:
a)     Os argumentos dos indignados contra a lei sobre piercings e tatuagens.
A lei é inconstitucional: o Estado não pode interferir na decisão dos pais sobre os filhos; piercing e tatuagem não prejudicam a sociedade; a lei interfere na liberdade das pessoas.

b)    Os argumentos dos satisfeitos a favor da lei.
A lei dá apoio legal para os pais que são contra piercings e tatuagens em filhos menores; defende o cidadão de um arrependimento futuro: menores não tem condições de avaliar as consequências de piercing e tatuagens, que podem trazer problemas profissionais, menores ainda não sabem escolher o que querem.

4 – Releia a fala de Vera, mãe de Ana Paula e Juliana.
a)     Está implícito na fala de Vera que há um preconceito em relação a piercings e tatuagens. Que preconceito?
O preconceito de quem usa piercing e tem tatuagens também usa drogas e é marginal.

b)    Vera é a favor ou contra a lei que proíbe piercings e tatuagens em menores de idade? Justifique sua resposta.
É contra, porque: trouxe prejuízo para suas filhas; piercing e tatuagem não são problemas que mereçam uma lei; a preocupação dos legisladores deveria voltar-se para verdadeiros problemas, como jovens desassistidos que usam drogas.

5 – Que problemas as pessoas entrevistadas apontam como possíveis consequências negativas de piercings e tatuagens?
       Piercings colocados por profissionais sem habilitação podem infeccionar; tatuagens podem ser mal feitas; piercings e tatuagens podem causar problemas profissionais, porque há preconceito contra quem os usa; a pessoa pode se arrepender da tatuagem no futuro.
02 – O SONHO DE SER DONO DO PRÓPRIO NARIZ

         Dirigir, beber e entrar em boates são, para menores, as vantagens de ser maior.
         Chiquinho tem 16 anos e, para impressionar as meninas e tirar onda de mais velho, anda com uma chave de carro pendurada no chaveiro, que fica sempre à vista, preço à calça. Parece brincadeira, mas é sério. Chiquinho é amigo de Júlio [...], de 15 anos, que, como a maioria dos garotos de sua idade, também tem vontade de ser mais velho.
         -- Queria poder dirigir. Para quê?
         Ah, para poder levar as garotas em casa e não ter que depender dos pais para buscar nas festas – diz Júlio.
         Aparentemente bem mais do que seus 14 anos, Guilherme [...] garante que nunca mentiu sobre sua idade. Para ele, ter 18 anos não é tudo:
         -- Queria ter logo 21, pois com 18 anos você ainda deve satisfação aos pais. O bom de ter carro é que qualquer um, mesmo sendo feio, leva uma menina para casa depois de uma festa. É sério! Qual a menina que gosta de voltar a pé ou de ônibus? – argumenta.
         Edson [...], de 15 anos, cita outras vantagens de ser maior de idade:
         -- Poder ir a boates sem correr o risco de ser barrado na porta, tomar cerveja e não ter hora para voltar para casa – lista Edson.

         A responsabilidade que chega junto com a maioridade

         André [...], de 16 anos, também queria poder voltar mais tarde para casa, de carro, mas acha que ainda não está preparado para dirigir.
         -- Acho que 16 anos ainda é muito cedo para dirigir. Até os 18 a gente amadurece, ganha mais experiência. Não sei se teria maturidade para dirigir sozinho, só acompanhado por alguém mais velho.
         Como ele, sua namorada Júlia [...], de 15 anos, também busca a responsabilidade.
         -- Não tinha vontade de ter 18 anos, mas de poder fazer as coisas que os mais velhos podem com a idade que tenho. Queria ter a liberdade para fazer o que quiser. Não só para entrar em lugares proibidos para menores, mas para poder trabalhar, ter o meu próprio dinheiro, ter mais responsabilidade. Deve ser bom responder pelos seus atos, sem depender de mais ninguém – acredita Júlia.
         É justamente essa responsabilidade que Júlia procura que as amigas Soraya [...] e Maria [...], ambas de 14 anos, acham a única coisa ruim de ser maior de idade.
         -- O ruim é que com 18 anos a adolescência já está acabando. Você passa a ter muita responsabilidade e tem que trabalhar – lamenta Soraya, acrescentando que, em compensação, poderá entrar em boates.
         Já sua amiga Renata [...], de 113 anos, só vê vantagens.
         -- Com 18 anos você está livre, pode ir morar sozinha! Já até combinei de dividir apartamento com uma amiga – sonha Renata, que está contando os dias, ou melhor, os anos, para fazer 18 anos.

               O Globo, Rio de Janeiro, 2 ago. 1998, Caderno Planeta Globo, p. 4.
                                        (Os sobrenomes dos entrevistados foram retirados).

1 – O texto é uma reportagem. Leia a diferença entre estes dois tipos de texto jornalístico – a notícia e a reportagem:
         Notícia: relata a informação da maneira mais objetiva possível; raramente é assinada:
         Reportagem: traz informações mais detalhadas sobre notícias, interpretando os fatos; é assinada quando em informação exclusiva ou se destaca pelo estilo ou pela análise.
a)     Por que o texto é uma reportagem e não uma notícia?
Porque não apenas noticia o que adolescentes pensam sobre as restrições que enfrentam, mas detalha e interpreta os fatos, comprovando-os com entrevistas e mostrando a diferença entre as opiniões dos adolescentes.

b)    A reportagem é assinada por quem? Por quê?
Por Inês Amorim. Porque a matéria não apenas informa sobre as restrições a menores, mas interpreta essas restrições e acrescenta informações exclusivas, por meio de entrevistas; a avaliação do estilo e da análise, mencionados na definição de reportagem, é pessoal – qualquer resposta pode ser aceita, desde que justificada.

2 – Recorde o título da reportagem:
            “O Sonho de ser dono do próprio nariz
a)     O que quer dizer “ser dono do próprio nariz”?
Ser livre, independente para tomara decisões e assumir responsabilidades; não ser submetido a restrições ou impedimentos.

b)    Em sua opinião, este título é adequado ao conteúdo da reportagem? É atraente, motivando o leitor a ler a matéria?
Resposta pessoal.

3 – Releia o lide da reportagem.
       Veja o objetivo atribuído ao lide: O lide tem por objetivo introduzir o leitor na reportagem e despertar seu interesse pelo texto já nas linhas iniciais.
a)     Em sua opinião, o lide da reportagem atinge o objetivo de introduzir o leitor na matéria, apresentando uma boa síntese dela?
Resposta pessoal.

b)    Em sua opinião, o lide da reportagem desperta o interesse do leitor pelo texto? Despertou o seu interesse pelo texto?
Resposta pessoal.

4 – A jornalista usou um subtítulo na reportagem.
a)     Qual é o subtítulo?
A responsabilidade que chega junto com a maioridade.

b)    O que diferencia os adolescentes que aparecem na parte inicial da reportagem dos que aparecem depois do subtítulo?
Na parte inicial: adolescentes que desejam livrar-se das restrições impostas aos menores de idade; após o subtítulo: adolescentes que reconhecem a importância de aguardar a maturidade, ou identificam a relação entre maioridade e responsabilidade.

5 – Neste livro, este sinal [...] foi introduzido em vários pontos da reportagem.
a)     Esse sinal substitui o quê?
A questão retorna, para fins de revisão, o significado de recurso gráfico apresentado em texto anterior. Substitui o sobrenome dos entrevistados.

b)    Por que foi feito essa substituição?
Para respeitar a privacidade dos entrevistados, que podem não desejar sua identificação num livro didático.
03 –  OS  JORNAIS

         Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:
         -- Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na Índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo. Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira. Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que noticia. O jornal quer fatos que sejam notícias, que tenham conteúdo jornalístico. Vejamos a história desse crime. “Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz...” Você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim:
         “Anteontem, cerca de 21 horas, na rua Arlinda, no Méier, o sapateiro Augusto Ramos, de 28 anos, casado com a senhora Deolinda Brito Ramos, de 23 anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lâmpada para abraça-la alegremente, dando-lhe beijos na garganta e na face, culminando em um beijo na orelha esquerda. Em vista disso, a senhora em questão voltou-se para o seu marido, beijando-o longamente na boca e murmurando as seguintes palavras: Meu amor, ao que ele retorquiu: Deolinda. Na manhã seguinte, Augusto Ramos foi visto saindo de sua residência às 7:45 da manhã, isto é, dez minutos mais tarde do que o habitual, pois se demorou, a pedido de sua esposa, para consertar a gaiola de um canário-da-terra de propriedade do casal.”
         A impressão que a gente tem, lendo os jornais – continuou meu amigo – é que “lar” é um local destinado principalmente à prática de “uxoricídio”. E dos bares, nem se fala. Imagine isto:
         “Ontem, cerca de 10 horas da noite, o indivíduo Ananias Fonseca, de 28 anos, pedreiro, residente à rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou no bar Flor Mineira, à rua Cruzeiro, 524, em companhia de seu colega Pedro Amâncio de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambos entregaram-se a fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim quando apareceu Joca de tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado. Dirigindo-se aos dois amigos, Joca manifestou desejo de sentar-se à sua mesa, no que foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de várias rodadas, Joca declarou que pagaria toda a despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto, insistiu, seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com a intervenção do referido empregado, que aceitou a nota que Joca lhe estendia. No momento em que trouxe o troco, o garçom recebeu uma boa gorjeta, pelo que ficou contentíssimo, o mesmo acontecendo aos três amigos que se retiraram do bar alegremente, cantarolando sambas. Reina a maior paz no subúrbio do Encantado, e a noite foi bastante fresca, tendo dona Maria, sogra do comerciário Adalberto Ferreira, residente à rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegando a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada.”
         E meu amigo:
         -- Se um repórter redigir essas duas notas e leva-las a um secretário de redação, será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida...
                                                       Pequena antologia do Braga. Rio de Janeiro:
                                                                                       Record, 1997, p. 109-111.

1 – Observe: a crônica, quase toda ela, é constituída de falas de uma amigo.
a)     Identifique as únicas frases da crônica que não são falas do amigo.
A primeira: Meu amigo lança fora...; a segunda: ...continuou meu amigo..., no quarto parágrafo; e, no final: E meu amigo:

b)    Dê sua opinião:
- O autor (o cronista) assume o papel de narrador para contar o ponto de vista que um amigo (que existe mesmo) tem a respeito das notícias que os jornais publicam?
Ou:
- O autor cria um personagem – o amigo – para, por meio dele, expressar seu ponto de vista pessoal a respeito das notícias que os jornais publicam?
A expectativa é que o aluno escolha a segunda opção, mas a primeira pode ser aceita, se adequadamente justificada.

2 – O amigo cita:
       -- Alguns exemplos de fatos que os jornais noticiam – fatos que tem “conteúdo jornalístico”, são notícias.
       -- Dois contraexemplos: fatos que os jornais não noticiam – não tem “conteúdo jornalístico”, são não notícias.
        a) Que exemplos o amigo dá de notícias?
            Desastre, acidente de mina, surto de peste, crime.

        b) Que exemplos o amigo dá de não notícias?
             Felicidade de um casal no lar, encontro alegre de amigos num bar, noite de paz num subúrbio, sonho de uma avó.

3 – O amigo encontra no jornal o crime de um sapateiro que matou a mulher que o traía.
        - Segundo o amigo, o que é que o jornal não noticia a respeito desse crime? Por que não noticia?
         Não noticia a felicidade em que viveu o casal anteriormente, porque esse fato não tem conteúdo jornalístico.

4 – Localize as frases na crônica e responda às questões:
      “Você acredita nisso que os jornais dizem?”
a)     Nisso: em que não se deve acreditar?
Que no mundo só acontecem desastres e desgraças.

           “Eu não afirmo que isso seja mentira.”
b)    Isso: o que não é mentira?
O crime do sapateiro ou, mais genericamente, os fatos que o jornal noticia.

c)     Observe a aparente contradição entre estas duas frases:
- Não se deve acreditar no que os jornais dizem.
- Não se pode afirmar que seja mentira o que os jornais dizem.
Mostre que a contradição é só aparente – segundo o amigo:
- Lendo os jornais, há algo em que não se deve acreditar. O quê?
- Lendo os jornais, há algo em que se pode acreditar. O Quê?
Não se deve acreditar que no mundo só acontecem desastres e desgraças. Pode-se acreditar no que o jornal noticia.

5 -  Recorde a primeira frase da crônica e observe a palavra destacada:
       “Meu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:”
       - Se, em seguida, o amigo reclama contra o que lê no jornal, que só anuncia desastres e desgraças, de onde vem essa sua alegria?
       Da lembrança de que no mundo acontecem também coisas boas, que os jornais não noticiam; da percepção de que a imagem negativa que o jornal dá do mundo é falsa, não acontecem apenas desastres e desgraças.
A imagem pode conter: flor, planta e natureza


 Até onde posso vou deixando o melhor de mim.Se alguém não viu,foi porque não me sentiu com o coração.

Clarice Lispector





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         Estou me vendo debaixo de uma árvore, lendo a pequena história da literatura brasileira. [...]
         Olavo Bilac! – eu disse em voz alta e de repente parei quase num susto depois que li os primeiros versos do soneto à língua portuguesa: última flor do Lácio, inculta e bela / És, a um tempo, esplendor e sepultura.
         Fiquei pensando, mas o poeta disse sepultura?! O tal de Lácio que não sabia onde ficava mas de sepultura eu entendia bem, disso eu entendia, repensei baixando o olhar para a terra. Se escrevia (e já escrevia) pequenos contos nessa língua, quer dizer que era a sepultura que esperava por esses meus escritos?
         Fui falar com meu pai. Comecei por aquelas minhas sondagens antes de chegar até onde queria, os tais rodeios que ele ia ouvindo com paciência enquanto enrolava o cigarro de palha, fumava nessa época esses cigarros. Comecei por perguntar se minha mãe e ele não tinham viajado para o exterior.
         Meu pai fixou em mim o olhar verde. Viagens, só pelo Brasil, meus avós é que tinham feito aquelas longas viagens de navio, Portugal, França, Itália... não esquecer que a minha avó, Pedrina Perucchi, era italiana, ele acrescentou. Mas por que essa curiosidade?
         Sentei-me ao lado dele, respirei fundo e comecei a gaguejar, é que seria tão bom se ambos tivessem nascido lá. Estaria agora escrevendo em italiano, italiano! – fiquei repetindo e abri o livro que trazia na mão: Olha aí, pai, o poeta escreveu com todas as letras, nossa língua é sepultura mesmo, tudo o que a gente fizer vai pra debaixo da terra, desaparece!
         Calmamente ele pousou o cigarro no cinzeiro ao lado. Pegou os óculos. O soneto é muito bonito, disse me encarando com severidade. Feio é isso, filha, isso de querer renegar a própria língua. Se você chegar a escrever bem, não precisa ser italiano ou espanhol ou alemão, você ficará na nossa língua mesmo, está me compreendendo? E as traduções? Renegar a língua é renegar o pais, guarde isso nessa cabecinha. E depois (ele voltou a abrir o livro), olha que beleza o que o poeta escreveu em seguida, Amo-te assim, desconhecida e obscura, veja que confissão de amor ele fez à nossa língua! Tem mais, ele precisa da rima para sepultura e calhou tão bem essa obscura, entendeu agora? – acrescentou e levantou-se. Deu alguns passos e ficou olhando a borboleta que entrou na varanda: Já fez a sua lição de casa?
         Fechei o livro e recuei. Sempre que o meu pai queria mudar de assunto ele mudava de lugar: saía da poltrona e ia para a cadeira de vime. Saía da cadeira de vime e ia para a rede ou simplesmente começava a andar. Era o sinal. Não quero falar nisso, chega. Então a gente falava noutra coisa ou ficava quieta.
         Tantos anos depois, quando me avisaram lá do pequeno hotel em Jacareí que ele tinha morrido, fiquei pensando nisso, ah! Se quando a Morte entrou, se nesse instante ele tivesse mudando de lugar. Mudar depressa de lugar e de assunto. Depressa, pai, saia da cama e fique na cadeira ou vá pra rua e feche a porta!
                                           Durante aquele estranho chá: perdidos e achados.
                                                              Rio de Janeiro: Rocco, 2002, p. 109-111.
1 – O poeta chama a língua portuguesa de flor do Lácio.
a)     Recorde o comentário da narradora:
“O tal de Lácio eu não sabia onde ficava...”
Você sabe onde ficava “o tal de Lácio”: onde?
Na Península Itálica (região onde surgiu Roma)
b)    Por que o poema chama a língua portuguesa de flor do Lácio?
Porque é um produto excepcionalmente bom, bonito (como uma flor) da língua que se falava no Lácio; porque é uma língua tão bela quanto uma flor que tem sua origem no latim, língua falada no Lácio.
2 – O poeta atribui à língua características que se opõem; explique:
a)     A língua é bela, mas é inculta – porque é inculta?
É inculta porque não é produto de cultura, é a língua de um povo ainda sem tradição cultural; É inculta, porque é primitiva, rude.
b)    A língua é esplendor (brilho, grandiosidade), mas é sepultura – por que é sepultura?
Porque, por ser uma língua desconhecida, o que é escrito nela fica fora do alcance dos outros, fica escondido, oculto.
3 – Por que a narradora ficou tão perturbada ao ver a língua portuguesa chamada de sepultura?
       Porque escrevia e assustou-se com a possibilidade de que não tivesse leitores, de que seus textos ficassem inacessíveis.
4 – Para a narradora, a solução para escapar da língua-sepultura seria escrever em italiano:
         “Estaria agora escrevendo em italiano, italiano!”
a)     Por que italiano, e não francês, alemão, inglês...?
Porque era descendente de italianos, poderia ter nascido na Itália, a língua italiana era para ela uma possibilidade que tinha sido perdida.
b)    Escrever em italiano e não em português seria melhor não por causa do número de falantes – observe que o italiano não está incluído no quadro da p. 195. Que vantagem teria o italiano sobre o português?
O italiano é uma língua mais difundida no mundo, mais estudada, mais conhecida, é a língua de um país com mais representação econômica, cultural e literária que os países de língua portuguesa.
5 – Recorde a opinião do pai sobre o poema:
       “O soneto é muito bonito...”
       Veja, na p. 200, o poema de Olavo Bilac – um soneto; conte o número de estrofes, o número de versos em cada estrofe e conclua: qual é a forma de um soneto?
       O objetivo é provocar a leitura do poema de Bilac e aproveitar a referência a soneto, na crônica, para que os alunos conheçam esta forma de composição poética.
02 – A LÍNGUA MÃE

Não sinto o mesmo gosto nas palavras:
Oiseau e pássaro.
Embora elas tenham o mesmo sentido.
Será pelo gosto que vem de mãe? De língua mãe?
Seria porque eu não tenha amor pela língua de Flaubert?
Mas eu tenho.
(Faço este registro porque tenho a estupefação de não sentir
Com a mesma riqueza as palavras oiseau e pássaro).
Penso que seja porque a palavra pássaro em mim repercute a infância
E oiseau não repercute.
Penso que a palavra pássaro carrega até hoje nela o menino que ia
De tarde pra debaixo das árvores a ouvir os pássaros.
Nas folhas daquelas árvores não tinha oiseaux
Só tinha pássaros.
É o que me ocorre sobre língua mãe.
                           Manoel de Barros. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro:
                                                                                       Salamandra, 20011. [s.p.].
1 – O poema tem “a estupefação” de não sentir com a mesma riqueza as palavras em português e em francês. Por que isso lhe causa “estupefação”?
       Porque ele tem amor pela língua francesa, como tem pela língua mãe, assim, deveria gostar igualmente das duas palavras.
2 – No final do poema, o poeta encontra a explicação para o fato de não sentir o mesmo gosto nas palavras em francês e em português.
a)     Qual é a explicação?
Ele na infância só sabia a palavra pássaro, que ficou ligada às suas experiências de menina com pássaros: a palavra pássaro carrega lembranças da infância, a palavra oiseau, não.
b)    Considerando essa explicação, está certo o poema quando diz, no início do poema, que as duas palavras tem o mesmo sentido?
Resposta pessoal: A expectativa é que os alunos percebam que as duas palavras não tem, na verdade, o mesmo sentido para o poeta, e concluam que as palavras adquirem um sentido diferente, conforme as experiências e conhecimentos da pessoa.
3 – O poema chama sua língua mãe; por que a língua é mãe?
       Porque é a sua língua de origem; a primeira que aprendeu; a língua em que se educou, se formou, a língua que aprendeu da mãe.
4 – Na opinião de vocês, é possível sentir em um língua estrangeira a mesma riqueza e o mesmo gosto que se sente na língua materna?
       Resposta pessoal: O objetivo é levar os alunos a refletir sobre a relação entre a língua e a constituição da identidade, e a expectativa é que percebam que a primeira língua aprendida na infância institui um modo de pensar, de sentir próprios de uma cultura, de uma nacionalidade.