terça-feira, 23 de junho de 2015





Sopa de Macarrão

            O filho olha emburrado o prato vazio, o pai pergunta se não está com fome. — Com fome eu tô, não to é com vontade de comer comida de velho.
            Lá da cozinha a mãe diz que decretou ― De-cre-tei! — que ou ele come legumes e verduras, ou vai passar fome.
            — Não quero filho meu engordando agora para ter problemas de saúde depois. Só quer batata frita e carne, carne e batata frita!
            Ela vem com a travessa de bifes, o pai tira um, ela senta e tira o outro, o filho continua com o prato vazio.
            — Nos Estados Unidos — continua ela — um jornalista passou um mês comendo só fastfood, engordou mais de seis quilos!
            — E como é que ele aguentou um mês só comendo isso?! — perguntou o pai.
            O filho responde:
            — Porque é gostoso! — E pega com nojo uma folhinha de alface, põe no prato e fica olhando como se fosse um bicho.
            A mãe diz que é preciso ao menos experimentar para saber o que é ou não gostoso, e o pai diz que, quando era da idade dele, comia cenoura crua, pepino, manga verde com sal, comia até milho verde cru.
            — E devorava o cozido de legumes da sua avó! E essa alface? Pra comer, é preciso botar na boca...
            O filho enfia a alface na boca, mastiga fazendo careta, pega um bife, a mãe pula na cadeira, pega o bife de volta:
            — Não senhor! Só com salada pra valer, arroz, feijão, tudo!
            — Ele continua olhando o prato vazio, até que resmunga:
            — Se vocês sempre comeram tão bem, como é que acabaram barrigudos assim?
            O pai diz que isso é da idade, o importante é ter saúde.
            — E você, se continuar comendo só fritura, carne, doce e refrigerante, na nossa idade vai pesar mais de cem quilos!
            — No Japão — resmunga ele — podia ser lutador de sumo e ganhar uma nota.
            — E no Natal — cantarola a mãe — vai ser Papai Noel, né? E Rei Momo no carnaval... — Não tripudie — diz o pai. — Ele ainda vai comer de tudo. Quando eu era menino, detestava sopa. Aí um dia minha mãe fez sopa com macarrão de letrinhas, passei a gostar de sopa!
            O filho pergunta o que é macarrão de letrinhas, o pai explica. Ele põe na boca uma rodela de tomate, o pai e a mãe trocam um vitorioso olhar. O pai faz uma voz doce:
            — Está descobrindo que salada é gostoso, não está?
            — Não, peguei tomate para tirar da boca o gosto nojento de alface, mas acabo de descobrir que tomate também é nojento.
            — Mas catchup você come não é? Pois é feito de tomate!
            — E ele também não come ovo — emenda a mãe — mas come maionese, que é feita de ovo!
            O filho continua olhando o prato vazio.
            — Coma ao menos feijão com arroz — diz o pai.
            Ele pega uma colher de feijão, outra de arroz dizendo que viu um filme onde num campo de concentração só comiam assim pouquinho, só o suficiente pra sobreviver... Mastiga tristemente, até que o pai lhe bota o bife no prato de novo, mas a mãe retira novamente:
            — Ou salada ou nada! Sem chantagem sentimental!
            O pai come dolorosamente, a mãe come furiosamente, o filho olha o prato tristemente.
            Depois a mãe retira a comida, ele continua olhando a mesa vazia. Na cozinha, o pai sussura para ela:
            — Mas ele comeu duas folhas de alface, não pode comer dois pedaços de bife?!...
            Ela diz que de jeito nenhum, desta vez é pra valer; então o pai vai ler o jornal, mas de passagem pelo filho, pergunta se ele não quer um sanduíche de bife — com salada, claro. Não, diz o filho, só quer saber de uma coisa da tal sopa de letras. O pai se anima:
            — Pergunte, pergunte!
            — Você podia escrever o que quisesse com as letras no prato?
            — Claro! Por que, o que você quer escrever?
            — Hambúrguer, maionese e catchup.
            É teimoso que nem o pai, diz a mãe. Teimoso é quem teima comigo, diz o pai. O filho vai para o quarto, só sai na hora da janta: sopa de macarrão. Então, vai escrevendo, e engolindo as palavras: escravidão, carrascos, nojo, e enfim escreve amor, o pai e mãe lacrimejam, mas ele explica:
            — Ainda não acabei, tá faltando letra pra escrever: amo rosbife com batata frita...


Domingos Pellegrini
Antologia de crônicas: crônica brasileira contemporânea. São Paulo: Moderna, 2005.


INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

1)    Assinale o fato narrado nessa crônica. (0,5)

       (   ) Pai, mãe e filho discutem na mesa de almoço e jantar sobre a alimentação do filho.
       (   ) Pai e filho querem comer bife com batatas todos os dias.

2)    Quais personagens participam dessa crônica? (1,0)
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3)    Por que o pai e a mãe lacrimejam ao ver a palavra amor escrita na sopa? (1,0)
____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________


4)    Identifique quem está falando em cada uma das falas. (1,0)

a)  Não quero meu filho engordando agora para ter problemas de saúde depois. Só quer  batata frita e carne, carne e batata frita. _________________________________

b)  Coma ao menos feijão com arroz. ______________________________________

c) Você podia escrever o que quisesse com as letras no prato? _______________________

5)     A história lida poderia ter acontecido na vida real? Por quê? (1,0)
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GRAMÁTICA

1-    Complete as frases com mais, mas ou más: (0,5)

a) Tentou, _________ não conseguiu.
b) É um dos países ________ pobres do planeta.
c) Nosso país é rico, _________ não consegue sair do subdesenvolvimento.
d) Somente pessoas  _________ sentem inveja do próximo.
     e) Era linda e sorridente,  ________ não respeitava nem mesmo seus pais.

2-    Sublinhe os verbos que você encontra na tirinha. (1,0)






3-   Reescreva as frases na primeira pessoa do plural. (1,0)

         a- ­ Eu fui até o supermercado comprar refrigerantes.            

______________________________________________________________
______________________________________________________________


           b- ­ Ela precisa ir ao dentista hoje à tarde.
______________________________________________________________
______________________________________________________________


4-   . Reescreva as frases no singular: (1,0)

a) Os girassóis estão cheios de formigas.
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b) Os anéis enfeitam as mãos.
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c) Os pires das xícaras são azuis.
________________________________________________________________________________________________________________________________________

d) Os cães dormem nos canis dos quintais.
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5- Veja o exemplo e complete: (1,0)

Sempre compro livros.
Verbo: comprar
Tempo: presente
1ª pessoa do singular

a)  Amanhã lerei o livro.
Verbo: _____________________
Tempo: _____________________
______________________________________________

b)  Ontem não contaram a história.
     Verbo: _____________________
Tempo: _____________________
_______________________________________________

 
 c) Ele lê a história para a mãe.
 Verbo: _____________________
Tempo: _____________________
_______________________________________________

            d) A mãe sorriu agradecida.
Verbo: _____________________
     Tempo: _____________________
_______________________________________________

             e) As meninas brincarão na escola.
Verbo: _______________________________
Tempo: _______________________________
_________________________________________________



DITADO (1,0)


1-    ____________________________________________________

2-    ____________________________________________________

3-    ____________________________________________________

4-     ____________________________________________________

5-_____________________________________________________

6-_____________________________________________________

7-_____________________________________________________

8-_____________________________________________________

9-_____________________________________________________

10-_____________________________________________________


 Prof.ª Helena 


Responda colocando um X nas alternativas corretas:
CUIDADOS AO BRINCAR DE PIPA
1. Não empine perto da rede elétrica, em cima de lajes e telhados e em lugares movimentados;
2. Nunca use cerol: machuca os motociclistas e corta a camada de borracha dos fios de eletricidade;
3. Não use fios metálicos para empiná-las nem faça rabiolas de fita cassete: são condutores de energia e dão choques terríveis;
4. Não tente pegar nenhuma pipa que esteja enroscada em um fio elétrico;
5. Também não tente recuperá-las se tiverem caído em Estações Transformadoras de Distribuição (ETDs) ou em subestações da rede elétrica.
Fonte: DICAS e reportagens. Folha de S. Paulo
1- Além de machucar motociclistas, o texto afirma que o uso de cerol pode ser prejudicial quando ele:
(A) conduz energia a quem empina pipa.
(B) dá choque em quem empina pipa.
(C) ajuda a cortar a pipa do outro.
(D) corta a borracha dos fios elétricos.
PÃO DE QUEIJO
INGREDIENTES
·       2 ½ XÍCARAS DE POLVILHO DOCE
·       ½ XÍCARA DE POLVILHO AZEDO
·       1 XÍCARA DE LEITE
·       ¾ XÍCARA DE ÓLEO
·       1 XÍCARA DE QUEIJO PARMESÃO OU MINAS
·       3 OVOS INTEIROS
·       1 COLHER DE CHÁ DE SAL
MODO DE PREPARO
·       BATA TUDO NO LIQUIDIFICADOR, MENOS O QUEIJO;
·       DESPEJE TUDO EM UMA VASILHA E MISTURE COM O QUEIJO JÁ RALADO;
·       LEVE AO FORNO EM FORMINHAS DE EMPADA UNTADA POR 20 MINUTOS.
2- Este tipo de texto é:
(A)   uma notícia   
(B)   uma poesia 
(C)   uma fábula
(D)   uma receita
3- Assinale os alimentos necessários para fazer essa receita:
(A) farinha 
(B)  polvilho doce e azedo 
(C)  açúcar
(D) leite      
(E)  fubá  
(F)  óleo 
(G)  queijo parmesão
      (H) ovos    
      ( I )) azeite 
      (J) sal
Leia com atenção:
                 Há alguns animais que se fingem de mortos. Em vez de correr ou lutar contra o inimigo, eles se deitam imóveis, parecendo mortos. Isso confunde muitos predadores, que preferem se alimentar de animais vivos. Esse tipo de comportamento dos gambás norte-americanos deu origem à expressão “brincar de morrer”. Quando atacados, eles mancam, caem e rolam no chão, fecham os olhos e ficam com a língua para fora o tempo suficiente para afugentar a maioria de seus inimigos!
                                       O mundo da natureza – fatos incríveis.. São Paulo, Melhoramentos
4-  Os gambás norte-americanos quando atacados:
(A) correm, lutam e rolam no chão
(B) brincam, rolam e caem no chão
(C) rolam, pulam e lutam no chão
(D) mancam, caem e rolam no chão
A Boneca Guilhermina
            Esta é a minha boneca, a Guilhermina. Ela é uma boneca muito bonita. Ela é muito boazinha também. Faz tudo o que eu mando. Na hora de dormir, reclama um pouco. Mas depois pega no sono, dorme a noite inteira! Às vezes ela acorda no meio da noite e diz que está com sede. Daí eu dou água para ela. Daí ela faz xixi e eu troco a fralda dela. Então eu ponho a Guilhermina dentro do armário, de castigo. Mas quando ela chora, eu não aguento. Eu vou até lá e pego a minha boneca no colo. A Guilhermina é a boneca mais linda da rua.
MUILAERT, A. A boneca Guilhermina
5-  O texto trata, principalmente:
(A) Das aventuras de uma menina.
(B) Das brincadeiras de uma boneca.
(C) De uma boneca muito especial.
(D) Do dia-a-dia de uma menina com sua boneca
LISTA DE COMPRAS
Café da manhã
achocolatado
açúcar
adoçante
café (pó)
leite longa vida
manteiga e/ou
margarina
pão
geléia
Almoço e jantar
arroz
feijão
ovos
carnes
macarrão
macarrão instantâneo
legumes
verduras
alho
óleo
vinagre
sal
azeite
6- A finalidade desta lista é indicar:
(A) os produtos necessários para serem comprados no supermercado.
(B) os produtos que constam na dispensa de uma casa.
(C) os gastos excessivos com compras de supermercado.
(D) os artigos que são mais usados na alimentação de uma família.
  

7- O personagem da história ficou muito bravo com a Mafalda por que:
(A) Ela zombou dele.
(B) Porque ela o chamou de pirambaba e ele achou que era algo ruim, mesmo não sabendo o significado da palavra.
(C) Ele estava triste que foi mal na prova.
(D) Estava passando mal
Leia o texto
O que disse o passarinho
(...)
Um passarinho me contou
Que a ostra é muito fechada,
Que a cobra é muito enrolada
Que a arara é uma cabeça oca,
E que o leão-marinho e a foca...
Xô xô, passarinho, chega de fofoca!
PAES, José Paulo. O que disse o passarinho.
  
8-  A pontuação usada no final do verso “e que o leão-marinho e a foca...” sugere que o passarinho:
(A) Está cansado.
(B) Está confuso.
(C) Não tem mais fofocas para contar.
(D) Ainda tem fofocas para contar.
O porco e os espinhos
Tem sempre uma pedra
no caminho
do amigo porco-espinho.
Ele corre no mato,
até se diverte,
dá susto nos outros
e tem namorada.
Mas, coitadinho,
não pode dar
abraço apertadinho.
PIMENTEL, Luís. Novas idéias. São Paulo: Brasil.
9- O porquinho não pode dar um abraço apertado porque ele:
(A)) corre no mato.
(B)  dá susto nos outros.
(C) tem namorada.
(D) tem espinho.

QUE TINHA IDÉIAS


Clara Luz era uma fada, de seus dez anos de idade, mais ou menos, que morava lá no céu, com a senhora fada sua mãe. Viveriam muito bem se não fosse uma coisa:
Clara luz não queria aprender a fazer mágicas pelo livro das fadas.
Clara Luz queria inventar as suas próprias mágicas.
− Mas minha filha, todas as fadas sempre aprenderam por esse livro− dizia a Fada Mãe. Por que só você não quer aprender?
− Não é preguiça, não, mamãe. É que não gosto de mundo parado.
− Mundo parado?
− É que quando alguém inventa alguma coisa o mundo anda. Quando ninguém inventa nada, o mundo fica parado. Nunca reparou?
− Não...
− Pois repare só.
A Fada Mão ia cuidar do serviço, muito preocupada. Ela morria de medo do dia em que a Rainha das Fadas descobrisse que Clara Luz nunca saíra da Lição Um do Livro.
A rainha era uma velha fada muito rabugenta. Felizmente vivia num palácio do outro lado do céu. Clara Luz e sua mãe moravam numa rua toda feita de estrelas, chamada Via Láctea. A casinha delas era de prata e tinha um jardim todo de flores prateadas.
Minha filha faça uma forcinha, passe ao menos para a Lição Dois! − pedia a Fada Mãe, aflita.
− Não vale a pena, mamãe. A Lição Um é tão enjoada, que a dois tem que ser duas vezes pior...
− Mas enjoada por que se ensina a fabricar tapete mágico...
− Já pensou que maravilha saber fazer um tapete mágico?
− Não acho não. Tudo quanto é fada só pensa em tapete mágico. Ninguém tem uma idéia nova!
Clara Luz estava sempre fazendo experiências com sua varinha mágica. Já de manhã cedo, reparava no bule de prata, olhava para ele e tinha uma idéia:
− Tem bico. Dá um bom passarinho.
E transformava o bule em passarinho, mas, o passarinho saía com três asas, duas novas e a do bule que tinha sobrado.
A Fada Mãe entrava na sala e levava um susto danado
− Que bicho esquisito é esse?
− É o bule, mamãe, que eu transformei em passarinho.
− Clara Luz! E agora? Onde vou coar o pó da meia noite para fazer o nosso café? E que idéia é essa de fazer passarinhocom três asas? Ao menos ponha só duas asas nele!
− Mas mamãe, ele gosta de ter três asas!
O passarinho furioso entrava na conversa:
− Não gosto não senhora! Faça o favor de me consertar já!
Clara Luz não acertava e quem acabava consertando era a Fada Mãe e o passarinho agradecia muito:
− Se não fosse a senhora eu não sei como seria! Essa sua filha é muito intrometida. E saía pela janela resmungando ainda.
− Veja só inventar que eu gosto de ter três asas!
Mas essas eram as idéias menores de Clara Luz. Havia outras bem maiores.
A maior amiga de Clara Luz era Vermelhinha, uma estrela cadente e por ser cadente Vermelhinha podia ir onde queria no céu. Ela e Clara Luz corriam sem parar brincando de esconder atrás das nuvens.
− Minha filha, porque você não arranja uma amiga mais calma, heim? − perguntava a Fada Mãe, às vezes muito tonta com as travessuras de Clara Luz e Vermelhinha.
Mas perguntava por perguntar, pois gostava muito de vermelhinha. Tanto que, no aniversário da estrela resolveu dar uma festa.
            Vermelhinha ia fazer nove milhões de anos, o que para uma estrela é bem pouco.
            Clara Luz, que adorava festas, estava felicíssima, ajudando a mãe muito direitinho que justamente na véspera da festa teve que sair para desencantar uma princesa.
            − Não faz mal − disse a Fada Mãe − Está tudo quase pronto. Você pode ir fazendo a massa dos bolinhos de luz, enquanto eu vou ver a tal princesa. Acho que já sabe faze-los sozinha.
            − Sei fazer muito bem.
            − Ótimo! Amanhã cedo faço o bolo de aniversário. É só o que está faltando.
            E a Fada Mãe abrindo suas asas cor de prata saiu voando pela janela, então Clara Luz correu para a cozinha e abriu o livro de receitas na página dos bolinhos:

Bolinhos de Luz

250 g de raio de sol
250 g de raios de luar
1 c de chá de fermento de relâmpago
Maneira de fazer:
Mistura-se bem os raios de sol e de luar, até saírem faíscas.
Junta-se então o fermento de relâmpago.

− Que fácil! − pensou Clara Luz. − Não sei como certas pessoas podem achar difícil
fazer bolo!
E foi tirando os raios de sol e de luar dos potes onde estavam guardados, nas prateleiras. Despejou tudo num tacho e mexeu, como a receita mandava. A cozinha inteira começou a brilhar, faiscar e fazer barulho.
Quando chegou a hora do fermento, Clara Luz teve uma idéia:
− Fermento é que faz o bolo crescer. Se em vez de uma colher de chá, eu puser um relâmpago inteiro, vai sair um bolão enorme. Mamãe amanhã nem vai precisar fazer o bolo das velas.
É claro que não havia relâmpago inteiro em casa. Clara Luz não se atrapalhou:
− O jeito é eu ir para a janela e pescar o primeiro que passar.
Mas não foi fácil. Nenhum relâmpago concordava em entrar no bolo:
− Eu não, ora essa! Tenho mais o que fazer!
Afinal passou uma família inteira de relâmpagos: pai, mãe e cinco filhos. Ninguém deu confiança à Clara Luz mas, o menor de todos, um relampagozinho muito esperto ia no fim da fila.
− Pssiu! − chamou Clara Luz. − Você quer entrar no meu bolo?
− Eu não, que não sou bobo. Pensa que quero ser comido em festa de aniversário?
− Clara Luz pensou um pouco:
− Você entra e depois sai. É só para fazer o bolo crescer.
O relampagozinho começou a gostar da idéia:
− Puxa! Deve ser divertido mesmo...
E aí a confusão ficou do tamanho certo!
Fernanda Lopes de Almeida

A HISTÓRIA DO ZÉ ALEGRIA


                                          
Havia uma fazenda onde os trabalhadores viviam tristes e isolados.
Eles estendiam suas roupas surradas no varal e alimentavam seus magros cães com o pouco que sobrava das refeições. Todos que viviam ali trabalhavam na roça do Sr. João, dono de muitas terras, que exigia trabalho duro, pagando pouco.
Um dia chegou ali um jovem agricultor em busca de trabalho. Foi admitido
e recebeu, como todos uma velha casa para morar enquanto trabalhasse ali.
         Vendo a casa suja e abandonada, o jovem resolveu dar-lhe vida nova.
Cuidou da limpeza e, em suas horas vagas, lixou e pintou as paredes com cores alegres e brilhantes, além de plantar flores no jardim e nos vasos.
A casa limpa e arrumada destacava-se das demais e chamava a atenção de todos que por ali passavam.
Ele sempre trabalhava alegre e feliz na fazenda, por isso tinha o apelido de Zé Alegria. Os outros trabalhadores perguntavam:
− Como você consegue trabalhar feliz e sempre cantando com o pouco dinheiro que ganhamos?
O jovem olhou para os amigos e disse:
− Bem, este trabalho hoje é tudo que eu tenho. Ao invés de blasfemar e reclamar, prefiro agradecer por ele. Quando aceitei trabalhar aqui, sabia das condições. Não é justo agora reclamar. Farei com capricho e amor aquilo que aceitei fazer.
Os outros, que acreditavam ser vítimas das circunstâncias, abandonados pelo destino, o olhavam admirados e comentavam entre si:
− Como ele pode pensar assim?".
O entusiasmo do rapaz, em pouco tempo, chamou a atenção do fazendeiro, que passou a observá-lo à distância.
Um dia o Sr. João pensou:
− Alguém que cuida com tanto carinho da casa que emprestei, cuidará com o mesmo capricho da minha fazenda. Ele é o único aqui que pensa como eu. Estou velho e preciso de alguém que me ajude na administração da fazenda.
Num final de tarde, foi até a casa do rapaz e, após tomar um café fresquinho, ofereceu ao jovem o cargo de administrador da fazenda.
O rapaz aceitou prontamente.
Seus amigos agricultores novamente foram lhe perguntar:
− O que faz algumas pessoas serem bem sucedidas e outras não?
A resposta do jovem veio logo:
− Em minhas andanças, meus amigos, eu aprendi muito e o principal é que não somos vítimas do destino. Existe em nós a capacidade de realizar e dar vida nova a tudo que nos cerca. E isso depende da vontade de cada um de nós.
                                                                                              Autor desconhecido



O Pequeno Herói da Holanda



A Holanda é um país cuja maior parte do território fica abaixo do nível do mar. As pessoas construíram enormes muralhas chamadas diques para impedir o Mar do Norte de invadir a terra, inundando-a completamente, a partir de então, desde muitos séculos o povo se esforça para manter as muralhas resistentes, a fim de que o país continue seco e em segurança.
Até as crianças pequenas sabem que os diques precisam ser vigiados constantemente e que um buraco do tamanho de um dedo pode ser algo extremamente perigoso.
Há muitos anos, vivia na Holanda um menino chamado Peter. Seu pai era uma das pessoas responsáveis pelas comportas dos diques. Sua função era abri-las e fechá-las para que os navios pudessem sair dos canais em direção ao mar aberto.
Numa tarde do início do outono, quando Peter tinha oito anos, a mãe o chamou enquanto brincava: - Venha cá, Peter. Vá levar esses bolinhos do outro lado do dique para o seu amigo cego. Se você andar ligeiro e não parar para brincar, vai chegar em casa antes de escurecer.
O menino gostou da tarefa e partiu feliz da vida. Ficou um bom tempo com o pobre cego, contando-lhe sobre o passeio da vinda e o sol e as flores e os navios lá do mar.
De repente, lembrou-se da mãe dizendo para voltar antes de escurecer, despediu-se do amigo e tomou o rumo de casa.
Quando passava pelo canal, percebeu como as chuvas tinham feito subir o nível da água e que elas estavam batendo forte contra o dique, e pensou nos diques da casa do pai:
− Que bom que eles são tão fortes! Se quebrassem, o que seria de nós? Esses campos lindos ficariam inundados! − Meu pai sempre diz as águas estão "zangadas". Parece que ele acha que elas estão zangadas por ficarem presas tanto tempo.
O menino parava a toda hora para pegar umas florzinhas azuis que cresciam à beira do caminho, ou para escutar o barulhinho dos coelhos andando pela relva. Mas, com maior frequência, sorria ao pensar no pobre cego que tão poucos prazeres tinha e tanto apreciava suas visitas.
De repente, percebeu que o sol estava se pondo e escurecia rápido:
− Minha mãe vai ficar preocupada − pensou ele − já correndo para chegar logo em casa.
Nesse exato momento, ouviu um barulho. Parecia água respingando! O menino parou e foi procurar de onde vinha. Encontrou um buraquinho no dique por onde estava correndo um fio de água. Qualquer criança na Holanda morre de medo só de pensar num vazamento dos diques. Peter compreendeu o perigo imediatamente, se a água passasse por um buraco qualquer, de pequeno ele logo se tornaria grande e todo o país seria inundado.
O menino prontamente percebeu o que deveria fazer. Jogou fora as flores, desceu a encosta lateral do dique e enfiou o dedo no furo.
A água parou de vazar! E Peter ficou pensando com seus botões:
− Ahá! As águas zangadas vão ficar presas. Posso contê-las com meu dedo. A Holanda não vai ser inundada enquanto eu estiver aqui.
Correu tudo bem no início, mas logo escureceu e esfriou. O menino começou a gritar bem alto:
− Socorro! Alguém venha até aqui! Mas ninguém ouviu; ninguém veio ajudar.
Foi fazendo cada vez mais frio; o braço começou a doer e a ficar dormente. Ele tornou a gritar:
− Será que ninguém vai vir aqui? Mãe! Mãe!
Mas ela já tinha procurado pelo menino muitas vezes desde que o sol se fora, olhando pelo caminho do dique até onde a vista alcançava, e decidiu voltar para casa e fechar a porta, achando que ele havia decidido passar a noite com o amigo cego, e estava disposta a ralhar com ele no dia seguinte de manhã por ter ficado fora de casa sem sua permissão.
Peter tentou assobiar, mas os dentes batiam de frio. Pensou no irmão e na irmã, aconchegados no calor de suas camas, e no pai e na mãe queridos.
− Não posso deixá-los afogar. Preciso ficar aqui até que alguém venha, mesmo que passe a noite inteira.
A lua e as estrelas brilhavam, iluminando o menino recostado numa pedra junto ao dique. A cabeça pendeu para o lado, os olhos fecharam, mas Peter não adormeceu, pois a toda hora esfregava a mão que estava detendo o mar zangado.
− De alguma forma, eu vou agüentar! pensava ele. E passou a noite inteira ali, contendo as águas com seu dedinho.
De manhã, bem cedinho, um homem a caminho do trabalho achou ter ouvido um gemido enquanto passava por cima do dique. Inclinou-se na borda e encontrou o menino agarrado à parede da muralha.
− O que aconteceu? Você está machucado?
− Estou contendo a água do mar! − gritou Peter. − Mande vir socorro logo!
O alerta foi dado imediatamente. Chegaram várias pessoas com pás, e logo o furo estava consertado.
Peter foi levado para casa, ao encontro dos pais, e rapidamente todos ficaram sabendo que ele lhes havia salvo as vidas naquela noite e até hoje, ninguém se esquece do corajoso Pequeno Herói da Holanda.


Mudanças no galinheiro mudam as coisas por inteiro.


O Sol estava resfriado e tinha tomado uma aspirina. Mesmo assim, o nariz continuava a pingar, muito roxo-rosado, que é a cor do nariz do Sol, quando ele está resfriado.
Como o Sol estava muito chateado, sentindo calafrios, que são uns arrepios que sacodem a gente quando a febre é alta, pegou no telefone e telefonou para a Lua.
A Lua ouviu o telefone tocar, mas, como estava ocupada, chamou o Dragão, que é o cachorrinho dela.
O Dragão atendeu assim:
- Alô! Casa de dona Lua Nova!
O Sol, muito rouco, disse que precisava falar com ela, mas o Dragão respondeu que a dona Lua Nova estava ocupada e não podia atender.
O Sol ficou danado da vida, teve mais vinte e oito arrepios, sua febre aumentou até milhões de graus e gritou, quase sem voz:
- Anda logo, dona Lua Nova tem quem me atender!!!
O Dragão largou o telefone enganchado no dedo de um astronauta que ia passando e foi chamar dona Lua Nova.
Ele, o Dragão, era um tipo acostumado a obedecer a qualquer pessoa que falasse mais alto, muito nervoso, cuspindo um fogo bem fraquinho pelo nariz, tal como dizem que os dragões fazem. Era só dizer qualquer coisa, ele fazia, sem perguntar.
Como o Dragão tinha ouvido dizer que dragão soltava foguinho pelo nariz, ele também soltava, bem devagarzinho...
Não é que gostasse, achava até que não era muito agradável soltar fogo e puxar fumaça pro pulmão, mas fazia.
Dona Lua Nova foi atender, furiosa:
-Alô!!!
- Quem fala?
- É dona Lua Nova, seu Sol idiota! Manda chamar e depois fica perguntando
quem é?
- É que estou rouco e não escuto direito! - respondeu o Sol. Dona Lua ficou ainda mais furiosa com a resposta e falou:
- Diga logo qual é a pressa do assunto, estou ocupada!
- Fazendo o quê? - perguntou o Sol.
- Lendo o jornal no banheiro e fazendo o que não é da sua conta!
- É que eu estou com gripe, muito doente, estou com febre, muito alta, tomei aspirina e não adiantou. Deitei, me cobri, não adiantou. Então estou avisando que hoje não vou poder trabalhar, talvez a senhora possa dar um jeito.
- Quer dizer que hoje não vai ter dia?
- É! - espirrou o Sol. - Atchim!
- Quer dizer que o pessoal da Terra vai ter duas noites seguidas, sem um dia no meio?
- Atchim! - respondeu o Sol.
O espirro foi tão forte, que desligou o telefone.
Dona Lua Nova ficou nervosíssima. [...]
- Jeremias!
Esqueci de dizer que o Dragão se chamava Severino, mas a Lua, só de implicância, mudou o nome dele.
            O Dragão nem reclamou, porque aceitava as coisas com muita mansidão.
            - Senhora? - respondeu Severino, que era dragão e atendia pelo nome de Jeremias.
            - Apronta meu café, vou ter que sair novamente. O Sol está gripado, não pode trabalhar hoje. [...]
O Dragão trouxe pão, manteiga, geléia de jabuticaba, ovos estrelados e leite. A Lua comeu tudo e virou Lua Cheia, toda redonda. [...]
Quando a Lua Cheia apareceu novamente no céu, de dia, foi um espanto!
O galo ia cantar, olhou pra cima, não viu o Sol e ficou de boca aberta, sem entender onde o dia tinha ido parar.
            Como não havia Sol, o galo ficou chateadíssimo e começou a implicar com a galinha:
            - O galinheiro está uma desordem, você é péssima dona-de-casa, não cuida direito dos pintinhos, etc, etc, etc e tal.
            A galinha reparou que o Sol não estava no céu e que a Lua tinha voltado.
            Como o Sol é patrão do galo e galo tem mania de mandar em galinha, a galinha pensou, pensou, pensou e concluiu:
            - Se o galo não pode cantar porque o Sol sumiu do céu, é porque o galo não manda coisa alguma, porque, se mandasse, cantava. O galo implica comigo porque sou fraca, fraca.
Sou fraca, mas se eu resolver mudar, eu mudo!
A galinha subiu no poleiro, tomou coragem e falou:
- Se a casa está em desordem, a culpa é minha, mas também é do galo. Afinal, a casa é nossa. Ele que ajude... e se os pintinhos estão malcuidados é porque meu marido só faz cantar de galo, esquece de conversar com os filhos, esquece de ser amigo da gente.
            Aí, ela ficou tão nervosa, tão nervosa, que abriu a boca
e cantou:
            - Cocoricó!
            Quando a galinha cantou, o Dragão descobriu que tinha chegado a hora dos fracos...
            Pegou um pára-quedas e desceu lá de cima, gritando:
            - Meu nome não é Jeremias, meu nome é Severino!
Aí, a Lua pensou:
- Se o Sol está doente, por que será que eu tenho que trabalhar, sem receber um pagamento extra?
            A Lua foi pedir trezentos e cinqüenta e oito reais pro Sol, como pagamento por trabalhar fora do horário.
O Sol, quando ouviu falar em pagamento, ficou logo bom. Mais um dia de gripe seria muito caro.
O Dragão começou a exigir respeito e voltou a ser chamado pelo nome verdadeiro: Severino.
            Deixou também de fazer o que não gostava, passando a não soltar mais fogo
pelo nariz.
            Agora, o mais importante mesmo foi que a galinha aprendeu a cantar.
            Afinal... as mudanças no galinheiro,
mudaram as coisas por inteiro!

Sylvia Orthof. Retirado de: Contos de estimação. Rio de Janeiro: Objetiva, 20