quarta-feira, 19 de outubro de 2016

 

DIÁLOGO MALUCO

(Caetano Veloso x Carlos Drummond de Andrade)

Texto: Belinha (Minha homenagem a essas duas feras da música e da literatura)

Caetano Veloso: Eu vou fazer uma canção pra ela, uma canção singela, brasileira.

Drummond: Não cantarei amores que não tenho.

Caetano Veloso: Eu vou fazer um iê-iê-iê romântico.

Drummond: Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.

Caetano Veloso: Não me venha falar da malícia de toda mulher.

Drummond: Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.

Caetano: Uma loura tem que comer seu coração.

Drummond: Preparo uma canção em que minha mãe se reconheça.

Caetano:  Talvez eu seja o último romântico.

Drummond: Que pode uma criatura senão, entre criaturas amar?

Caetano Veloso: Eu vou fazer uma canção de amor.

Drummond: Amor é privilégio de maduros.

Caetano Veloso: Eu sigo apenas porque gosto de cantar.

Drummond: A canção absoluta não se escreve.

Caetano Veloso: Tudo é perigoso, tudo é divino e maravilhoso.

Drummond: Jamais ousei cantar algo de vida.

Caetano: Tolice é viver a vida assim sem aventura.

Drummond:  Sim, meu coração é muito pequeno.

Caetano: Quando você me ouvir cantar, venha não creia eu não corro perigo.

Drummond: Vontade de cantar. Mas tão absoluta que me calo, repleto.

Caetano: Precisa ter olhos firmes.

Drummond: Em verdade temos medo.

Caetano:  Navegar  é preciso, viver não é preciso.

Drummond: Refugiamo-nos no amor, este célebre sentimento.

Caetano: Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel, uma mulher, uma beleza que me aconteceu.

Drummond:  Amor, a descoberta de sentido no absurdo de existir.

Caetano: Ela comeu meu coração, trincou, mordeu, mastigou, engoliu.

Drummond: O amor profundo deixa raízes.

Caetano:  Quando eu chego em casa nada me consola.

Drummond: Viver é torturar-se, consumir-se.

Caetano: As garras da felina me marcaram o coração.

Drummond: inútil você resistir ou mesmo suicidar-se.

Caetano: E eu corri pra o violão num lamento e a manhã nasceu azul.

Drummond: Sossegue, o amor é isso que você está vendo.

Caetano:  Juro que não presto, eu sou muito louco.

Drummond: Os homens preferem duas.

Caetano: Eu nunca quis pouco, falo de quantidade e intensidade

Drummond: Entretanto você caminha melancólico e vertical.

Caetano: Mas eu também sei ser careta, de perto ninguém é normal.

Drummond: Todo ser humano é um estranho impar.

Caetano: Eu sou um leão de fogo.

Drummond: Teus ombros suportam o mundo.

Caetano: Por isso uma força me leva a cantar.

Drummond: Tu sabes como é grande o mundo.

Caetano:  Por isso é que eu canto, não posso parar.

Drummond: Então meu coração também pode crescer.

Caetano:  Não me amarra dinheiro não, mas formosura.

Drummond: Assim nos criam burgueses.

Caetano: Lágrimas encharcam minha cara.

Drummond: Como nos enganamos fugindo do amor!

Caetano: Ah, bruta flor do querer!

Drummond: Este é tempo de partido, tempo de homens partidos.

Caetano:  Existirmos –  a que será que se destina?

Drummond:  Vadiar, namorar, namorar, vadiar.

Caetano: Esse papo já ta qualquer coisa. Você já tá pra lá de marrakesh.

Drummond: Eta vida besta, meu Deus.

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